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Emenda
29
Aécio Neves
Aproxima-se o final do primeiro ano da atual legislatura
e, infelizmente, o saldo é negativo. Sabe-se que o primeiro ano de uma
administração é aquele em que o governante reúne as melhores condições para
iniciar as reformas pactuadas nas urnas com a população, sobretudo aquelas mais
difíceis, que contrariam interesses localizados, mas são necessárias ao
país.
Costuma ser um bom período para os governos: a popularidade confirmada
pelas eleições está mantida, a distância de novos pleitos facilita a manutenção
de uma base legislativa heterodoxa, alimentada pela principal matéria prima de
todo arranjo político: espaços de poder. Quanto mais o tempo avança, mais essas
condições se relativizam.
Infelizmente, o que vimos em 2011 foram inúmeras
agendas frustradas.
A regulamentação da Emenda 29 poderia ter sido uma boa
exceção entre elas. Depois de protelar durante anos a sua votação, o governo
federal mobilizou a sua base para votar contra a essência da proposta que o seu
próprio partido havia apresentado e que defendia um piso sobre a receita de 10%
para a União, 12% para os Estados e 15% para municípios, como investimentos
obrigatórios em saúde.
Na votação, o governo atuou no sentido de manter o
percentual dos Estados e municípios, impedindo, no entanto, que fosse fixado
também para a União o mesmo compromisso. Estados e municípios, muitos deles
enfrentando sérias dificuldades financeiras, vão precisar se adaptar às
exigências da lei. Paradoxalmente, o governo federal, que vem batendo recordes
de arrecadação, não fará a sua parte.
A votação estabeleceu uma injusta
dicotomia entre Estados e municípios, de um lado, comprometidos com
responsabilidades crescentes, e, de outro, a União, agora descompromissada do
percentual de investimentos de 10%.
Essa posição agride todos os brasileiros
que aguardam atendimento nos postos de saúde e nas filas dos hospitais. É
indefensável. A regulamentação da Emenda 29 é uma importante conquista da
sociedade, mas aconteceu sem o desfecho esperado. Com sua aprovação, nos termos
em que se deu, a saúde ficou sem os recursos necessários para a principal agenda
da população, já que o patamar atual de investimentos federais é muito inferior
ao piso proposto.
Vale a pena conhecer alguns números. Em 2000 a
administração federal respondia por 60% dos gastos públicos em saúde, os Estados
por 18% e os municípios por 22%. Em 2008, apesar da crescente concentração de
receitas na União, o governo federal respondia por 43%, os Estados por 27% e os
municípios por 30%. Essa tendência agride o princípio da Federação, que prevê,
antes de tudo, solidariedade e responsabilidades partilhadas.
AÉCIO NEVES
escreve às segundas-feiras nesta coluna.
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